quinta-feira, 18 de abril de 2019

REDENÇÃO


                
                                   
                    

        Um cinza sombrio reveste a tarde.
        Os ventos sopram nos cântaros
        Disseminando o sândalo das flores viçosas
        Visualizo assim, em penumbras tristes,
        O holocausto de Cristo em seu último suspiro.

        Deixo minha alma flutuar no infinito
        Procurando guarida nas asas de anjos benditos.
        Quero retirar do meu íntimo as névoas difusas
        E refletir, ouvindo a voz da alma em ritos
        Sobre os sentimentos mais crísticos.

        Quisera transformar nesse dia
        Todas as tragédias na mais pura poesia
        E as negras noites de angústia
        Em sobejante emoção e alegria.

        Que o amor possa refletir no mundo
        A sensação da eternidade e sublime amparo
        E que Deus tenha compaixão
        Dos nossos gestos frágeis e de desamparo.


                               Antenor Rosalino



quinta-feira, 4 de abril de 2019

VÍCIOS DE LITERATOS



                                                                      
                                     


Não foram raras as vezes em que, após ler a biografia de alguns poetas, fiquei um tanto intrigado ao sabê-los tão profundamente brilhantes na exteriorização dos seus sentimentos, mas, em contraponto, tão perdidos no degradante e desmoralizador vício do álcool e da exagerada boemia.

  Há já algum tempo, escrevi sobre esse tema. Na ocasião, argumentei que, a meu ver, o poeta não precisa se embriagar para ter inspiração. Asseverei que o vício é que o leva para a rua, e não a necessidade de se inspirar para escrever, o que pode ser feito, perfeitamente, de maneira sóbria, no silêncio embriagador de profunda reflexão no aconchego do próprio lar.

  Entretanto, tendo lido o livro “Chaplin e outros ensaios”, de Carlos Heitor Cony, cuja obra é interessantíssima e aborda a vida pessoal de alguns dos maiores escritores e poetas do Brasil e do mundo, causou-me ainda mais estranheza quando tomei conhecimento de que, o nosso consagrado e imortal romancista Lima Barreto, comparado ao talento de Machado de Assis, ambos cariocas, mestiços e descendentes de escravos, morreu aos 41 anos de idade, abraçado a uma revista, consumido pelo álcool e pela miséria e, como se não bastasse, com o pai louco no quarto ao lado.

  Chovia naquele dia fatídico. O velório, vez por outra, era interrompido pelo barulho da chuva e pelos gritos alucinados do pai insano e moribundo que morrera horas depois.
  No citado livro consta que Lima Barreto teve enterro dos mais humildes, cujo féretro fora acompanhado por alcoólatras iguais a ele, e vagabundos suburbanos, cheirando a álcool e pés descalços, com os quais o autor, por vezes, convivia pelas sombrias ruas dos subúrbios cariocas.

  Assim partiu para o eterno, na mais completa miséria e solidão, esse grande e brilhante escritor, apesar de sua extensa e riquíssima obra literária.

  Fica a pergunta: que angústia é essa que povoa o coração de tantos talentosos literatos? Lembro-me da vida breve de Augusto dos Anjos, cujo estilo poético encantador alicerçava-se, predominantemente, na finitude.

  Muitos se lembram, também, da torturante vida de Hilda Hilster, que morreu louca e solitária, tendo sido ela uma das maiores poetisas da nossa literatura.

  Há, portanto, outra e mais ampla visão sobre escritores e principalmente poetas que precisam ser desvendados e que, talvez, nunca será, pois são eles, notadamente, seres diferentes que, mesmo na realidade presente, parece viverem em outro mundo. Serão eles assim pelo fato de pensarem muito? Ou a sensibilidade é tanta que não suportam certas impiedades que, ao ponto de vista normal, são superáveis?

  Não se pode generalizar e atribuir a todos esses pensadores a tendência para a vida boêmia e/ou desregrada, mas também não se pode negar que tais artistas da escrita, dotados que são de tanto talento e exuberância na exteriorização do sentir, poderiam disseminar também maiores exemplos de vida pessoal digna para enfeitarem ainda mais o mundo com suas flores sentimentais que enternecem o leitor.


                                                                                    Antenor Rosalino

quinta-feira, 28 de março de 2019

EMOÇÕES





                                        
                   


           Um clamor se faz no horizonte longínquo.
           Disseminam-se versejos no alvor do veraneio. 
           Distantes de inoportunos estratagemas
           Candelabros de emoções insurgem
           Em faiscantes mimos de silhueta.

           Um transbordar de puras emoções
            Irradia a liberdade dos corpos que flutuam
            Sob o eflúvio de cânticos nas alturas
            Num apogeu glorificado ungido em sonho...
            Hábito de exaltada ternura.

             Num ápice visionário de quimeras,
             Enlaços de abraços no reino de alforria.
             Visões etéreas norteiam destinos
              E, na noite insone a reluzir no neon das ruas,
              Bailam  emoções em eternas fantasias.


            Antenor Rosalino

                                                          




                                   

quinta-feira, 14 de março de 2019

NO AFÃ DO AMOR PERFEITO


                               
                                 

No conhecido mundo de prazeres e conflitos
Diversos são os ângulos a serem repensados
Para que o amor esculpido se refaça,
Distante de ágmas, na amplidão dos luares.

O aprendizado perpétuo na concepção dos humildes
É a bússola que me guia ao ápice do amor perfeito.
Encantadoramente meteórico, um mistério se irradia
Fulgurantes poesias... Sol em tardes de domingo.

Na apreciação de apoteóticos estilos poéticos
Vêm-me à mente devaneios do Parnasianismo antigo
E, em oferenda, com igual louvação na terra trêmula
Estendo os meus braços para fecundos abraços.

Colhendo flores em jardins de encanto da imaginação
Entrego-me ao sopro da brisa e sonho pétalas sem temor
Postergando lágrimas na lividez dos risos de hoje
Suspiro presságios no desabrochar do amor.
                                                          

                                                                          Antenor Rosalino

quinta-feira, 7 de março de 2019

DEVANEIOS POÉTICOS


                                         
           


        Na simplicidade do eterno
        A alma poética passeia alada
        Mas sempre volta esculpida e decantada

        O sonhar quimérico pelo mundo
        Desfralda versos iluminados
        Que se confundem com os candelabros.

         Em divinais parcerias sacramentadas
         Vivenciam passeios fecundos
         Em jardins encantados pela luz do prado.

         Pelas folhas expressas de diários
         Traduzem nostálgicas escritas pretéritas...
         Resgate desenhado de sonhos azulados.

         A quietude desvanecerá o silenciar
         Quando as almas vertidas em pétalas
         Conjugarão felizes o verbo amar.



      Antenor Rosalino





   

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

PREFERÊNCIAS LITERÁRIAS


                           


Num desses meus devaneios literários, um pouco distante da poesia que me fascina, tive observando que a maioria das pessoas gosta de ler, preferencialmente, textos que trazem assuntos atuais, principalmente, quando esses as fazem pensar sobre certas circunstâncias que elas próprias vivenciam.
  Tenho observado, sobretudo, que há muitos sites que trazem sempre os mesmos assuntos, cuja falta de diversidade denota cabal falta de criatividade dos autores, muitos dos quais, parecem até mesmo não possuírem um estilo literário próprio. E isso decorre porque o autor se acomoda e não busca aprimoramentos, talvez devido ao receio de ser criticado e escrevem, na verdade, por imposição.
  A fidelidade ao estilo literário buscando sempre o melhor e a aceitação às críticas é o fundamento maior dos grandes autores e daqueles que possuem coerência descritiva.
  Não há dúvida de que os textos mais aceitos são escritos com o máximo de clareza e simplicidade, e se os mesmos são atuais, ganham muito mais admiração.
  Entretanto, de acordo com o tema, certos escritos precisam trazer um pouco mais de glamour, certas palavras diferenciadas.
 A poesia, por exemplo, se torna mais bela quanto maior for a exaltação às coisas inexistentes, distantes da mesmice vocabular do cotidiano. Isso não quer dizer falta de simplicidade, mas sim, sapiência, ou seja, conhecimento do que se faz, capacidade poética e diversidade intelectual.
  O ideal seria se todos escrevessem assuntos dos mais interessantes e diversificados, de acordo com nossas preferências, mas cada escritor tem seu estilo próprio, razão pela qual, isso se torna impossível.
  A literatura nada mais é do que aquilo que um país está fazendo, principalmente na arte literária, durante um determinado tempo. Logo, o trabalho do escritor é dos mais importantes por ser ele um criador de estilos que irá se perpetuar pelo tempo, como as diversas fases literárias das quais temos conhecimento.
    O clamor do povo por temas atuais é interessante, desde que não se crie um vácuo entre o que se deseja ler e outros tipos de leitura que, uma vez descobertas, concedem aventuras das mais pitorescas, instrutivas e até eletrizantes. Assim, e só assim, seremos contemplados com esse tesouro que é a literatura em seus diversos ângulos de estilos.



                                                                      Antenor Rosalino
                                                                   

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

FLORAIS DE JANELAS


            
      




            Crisálidas gotas transparecem            
            Em camarinhas como nuvens em brumas
            No transcorrer do tempo que voa
            Tilintando presságios aos que amam.

             Exuberantes florais de janelas
             Abrem trancas para o esperado amor
             Que se faz num divinal impulso ao léu
             Sob luz de estrelas em filetes no céu.


   No veraneio, um sopro divinal sobrevém.
   Névoas fecundam almas num encanto
   E mãos de crisálida exalam flores do além!

    Nostálgico pensar emerge o silenciar das almas
    Perscrutando o zelo da brisa disseminando mel,
    Aventando suspiros e versos tristes ao léu.



                                        Antenor Rosalino