sexta-feira, 9 de outubro de 2026

UM OLHAR Á EXISTÊNCIA HUMANA

                     

                       

  

Defino a passagem humana pela Terra, como uma breve oportunidade de aprendizado e, ao mesmo tempo, de utilização do infinito potencial de inteligência do qual somos dotados.         

   Algumas pessoas utilizam o seu cabedal de conhecimentos, experiências e criatividade, de modo bem mais abrangente do que outras e, com isso, desfrutam com alegria dos muitos prazeres que a vida pode oferecer, contrariamente àqueles que, por motivos de saúde, indolência ou falta de orientação, passam simplesmente pela vida, sem viver. Não sabem sequer, apreciar uma paisagem, o romantismo do crepúsculo, determinada arte, uma boa leitura...

  Felizmente, existem ainda aqueles que, com o passar do tempo, já na idade adulta, surpreendentemente repensam suas vidas e buscam na paz dos seus sentidos, a razão maior da existência, seguindo com humildade de sentimentos as vinhas da felicidade, onde o reto pensar e o amor ao próximo são os construtos que os levam a feitos imorredouros.

  Podemos atribuir tal fato, às incontáveis experiências que temos o privilégio de vivenciar. Recordo a seguinte indagação feita por Machado de Assis, em sua primorosa obra Memórias Póstumas de Brás Cubas: “recomeçar pelo princípio ou pelo fim?” A meu ver, todo começo trás um perfil mais puro e completo, a partir do seu princípio e só assim, o ser usufrui mais completamente das oportunidades de conhecimento e evolução para as quais, todos nós fomos criados.

   Em se tratando de Artes, contrapondo-me aos que acreditam que “o bom já nasce feito”, eu atribuo o sucesso em qualquer área artística, não como um dom, mas pelo fato do artista ter tido a percepção de ouvir, ver ou sentir algumas coisas com as quais se identifica. Por exemplo, a técnica das diversas formas literárias, os livros ensinam. O que é dificultoso é a criatividade, mas mesmo assim, esta pode ser adquirida em grande parte, com leituras variadas e observações aprofundadas sobre as coisas simples e belas da vida.

  Lembremos que os grandes escritores pautam suas vidas em profundas reflexões e leituras diversificadas.

  Aos poucos, a pessoa interessada aprimora o seu estilo próprio e realiza construtos admiráveis, os quais podem ocorrer tanto na jovialidade quanto na idade adulta e até mesmo na senilidade. Não faltam exemplos de intelectuais, letrados, e artistas das mais diversas áreas que ganham ou ganharam notoriedade a partir do outono de suas vidas.

  É oportuno dizer que muitas das afirmativas que para alguns são verdadeiras, para outros não o são, e assim, a polêmica sobre esse tema continua. Nessa conformidade, o importante é a reflexão sobre o que a palavra não diz e ouvindo a fala da alma, definirmos se o contexto trata ou não, de mais um enfoque da mais pura ilusão.

 

                                                             Antenor Rosalino

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

FASCÍNIO

 

                  

     Na quietude serena da casa,

     O pequeno quintal me acolhe

                             Enquanto a mente divaga

                            Formatando versos afáveis.

 

     O vento guia os meus sonhos

     E no colapsar de um suspiro

     A poesia suaviza as horas

     No fluir de belo dia.

 

     Vejo agora ao meu redor

     A chegada de um colibri

     Em silenciosa acrobacia

     Junto às flores coloridas.

 

     De repente o colibri na magia

     Do aromático circunspecto

     Beija uma flor ternamente

     Desfrutando do seu néctar.

 

     Um vento glacial, no entanto,

     Conduz o pássaro a outros céus

     E a florzinha fica triste,

     Em abandono ao léu.

                                  

     Deixo também os meus sonhos

     Sob nuvens de alfenim

     Com meu pensamento a mostrar-me           

     O quanto me esqueço de mim.

 

                                    Antenor Rosalino

 

domingo, 13 de setembro de 2026

DE CORAÇÃO A CORAÇÃO


                          

                        Neste dia sem sol,

                        O nublado me entristece.

                        Os pássaros emudeceram

                        E as plantas não florescem.

 

                         Nem mesmo as fontes ecoam

                         O sussurrar das cascatas.

                         Somente os uivos dos ventos

                         Trazem perfis de saudade.

 

                         Não vejo o encantamento púrpuro

                         de arrebóis flamejantes.

                         apenas sombras funestas

                         em esquecidos jardins.

 

                          Meu coração em prece,

                          Assevera o teu e diz:

                          Oh! Coração, não seja assim:

                          Como um riso sem alegrias...

                          Inacabado poema

                          Sobre vãs rimas perdidas.

 

                                         Antenor Rosalino

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

HUMANOS

 

            

        Tanto temos que fazer!

        Livros e artigos para ler e que não lemos,

        Línguas que não aprendemos,

        Amor que postergamos sob todas as óticas

        E tudo mais que esquecemos

        Num andar às avessas olhando em espelhos.

 

        Os amigos se vão, ficam os adeuses,

        Crianças clamam por um pedaço de pão

        Pássaros gorjeiam tristes atrás de grades

        Enquanto muitos de nós, indiferentes,

        Permanecemos subscrevendo papéis,

        Sem a observância de tudo o que é belo.

 

        A ciência evolui, mas as guerras e a ganância

        Avultam-se em descomunal proporção.

        Desvirtua-se a geografia dos construtos humanos

        Até que um dia caímos de olhos cerrados em lástimas.

        E desmancham-se átomos no silenciar profundo

        Do adeus final entre lágrimas.

 

                                          Antenor Rosalino

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SENTIMENTOS

                                                   


Há um aspecto relutante entre a mórbida paixão e a amizade verdadeira, A paixão tem perfil de posse. Os enamorados dominados pela volúpia do amor, só têm olhos para o seu bem querer, sufocando-o inconscientemente, e, aos poucos, vão se frustrando na tentativa de moldar um ao outro a seu bel prazer.

  Não me refiro aqui, aos enamorados que nutrem, em igualdade de condições, aquela paixão salutar, caracterizada pelo ardente desejo de estar a maior parte do tempo possível com a pessoa amada, pelo prazer da companhia e da cumplicidade. Eu falo da paixão exacerbada, que ultrapassa os limites da sensatez e do espaço próprio, para tentar protelar o domínio pessoal e restrito do outro.  

  A amizade, pelo contrário, é a essência eterna da solidariedade. Não tem amarras de domínio, é liberta, é sentimento nobre, isenta de interesses de reciprocidade. Gostamos dos nossos amigos e isso basta. Emprestamo-lhes o ombro afável, quando lágrimas rutilantes brotam dos seus olhos fatigados pelas adversidades. A ajuda, o consolo, estão sempre presentes e, mesmo na alquimia da distância, o calor da amizade aquece o coração e emite metafisicamente, raios de luz à pessoa amiga, em esperança de recebê-la num dia qualquer, de repente, e ver a felicidade vívida aventar-se no espaço, consumar-se em seu sorriso e comungar com nosso abraço.

   Assim como há casos e histórias apaixonantes de amores nascidos à primeira vista, é bem verdade também que, em muitos casos, ao perdermos tempo com alguma pessoa pela qual nutrimos um sentimento real de amizade, respeito e admiração, aos poucos a pessoa para a qual desejamos apenas a sua felicidade, sem pensarmos em reciprocidade de sentimentos perceberá que, surpreendentemente, passamos a representar muito para ela também, e não seria surpresa ouvirmos da pessoa a quem tanto devotamos afeto, respeito e admiração, a seguinte afirmação: “perdendo o seu tempo comigo, tornastes importante para mim”. 

   Portanto, numa análise clara dessa situação, não se trata de perda de tempo, em caso de uma amizade aparentemente unilateral, pelo contrário, esta é uma das mais admiráveis demonstrações de carinhosa amizade que podemos demonstrar por alguém, sobrelevando-se ainda, que não estará fora do contexto a afirmativa de que há tanta complexidade no amor e nas coisas do coração, que somos capazes até mesmo de amar uma pessoa de quem não vemos ou com a qual não temos maiores contatos.

   Fundamentalmente, a amizade é isso: uma desinteressada e afável solidariedade, cujo sentimento de tão nobre, até mesmo pode transformar-se em amorável cumplicidade transcendental.

                                                  

                                                          Antenor Rosalino


  

  

  

sábado, 1 de agosto de 2026

O CREPÚSCULO DA VIDA


                                                          


 

A voz quase sempre ausente e rouca

Murmura palavras em monossílabas

Lentas, tristonhas,

Buscando em desalento

O carinho dos entes queridos

À sua ansiedade louca.

 

Ânsia de melhor ouvir,

Sentir e sonhar

Novamente os encantos

Das quimeras e lembranças

Tão nítidas em seu olhar.

 

Suas mãos cansadas e trêmulas,

Pousam sobre o encosto

Da velha cadeira vermelha,

O mesmo vermelho a confundir-se

Vez por outra,

Com a luz do seu olhar

A marejar!

 

As emoções do presente

Não trazem como outrora

A alegria, o esplendor do porvir

E suas vertentes;

Apenas lembranças, ternas lembranças

De um risonho amanhecer...

De tão longínqua aurora.

 

Seu caminhar é lento, indeciso.

O seu sorriso é brando

Entre as rugas a se untar,

Mas a serenidade é vívida

Tal qual, a suavidade do seu olhar.

 

Depusera dos sonhos e da ilusão

Para viver, enfim,

A indizível quietude

Da vida em refração.

 

 

                                                                               Antenor Rosalino


sábado, 18 de julho de 2026

PRIMEIROS PASSOS

 

           


                      A mãezinha paciente,

                      ilumina a rósea face

                      na alegria de um sorriso;

                      abre os seus braços de égide,

                      e ensina os primeiros passos

                      ao seu amado filho,

 

                      A criancinha bambeia

                      e logo vem a primeira queda!

                      Numa segunda tentativa:

                      outra queda!

                      Na terceira: uma queda a mais,

                      porém, já com certo equilíbrio...

 

                      Vem a quarta experiência:

                      as perninhas se equilibram

                      e, mesmo bem desengonçado,

                      ostentando ardente brilho

                      no rostinho angelical,

 

                      Vem com passos cambaleantes

                      à mamãezinha abraçar,

                      e esta o recebe emotiva,

                      tendo no seu rosto vívido

                      uma lágrima a rolar.

 

      

                                        Antenor Rosalino