sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

O MORIBUNDO


A manhã está triste.

O sol apareceu brando e tímido.

O enfermo agonizante

luta contra a morte

no leito hospitalar!

 

Com o corpo extático

e o olhar distante

- como a buscar guarida

no horizonte -, pressente que

a eternidade se avizinha...

 

O coração inconsciente

ainda pulsa, e, por um instante,

num denodado esforço, tendo

os lábios semiabertos, exclama:

“Só em lembrar dos bons momentos

vividos já valeu a pena ter nascido!”

 

E expira, por fim,

num funesto murmúrio,

o fatídico adeus final.

 

                 Antenor Rosalino

sábado, 3 de fevereiro de 2024

RIBEIRÃO BAGUAÇU




    Em pequena mina de rocha

    No noroeste paulista

    Em divisa de cidades

    Nasce o ribeirão Baguaçu.

 

    Abrindo suas vertentes

    O manancial desce mansamente,

    Enfeitando as ribanceiras

    Alegrando a solidão!

 

    Suas águas banham o solo

    Da bela Araçatuba

    E segue sua jornada

    Entre atalhos e espinhos.

 

    Não se opõe às intempéries

    Nem tampouco às angusturas,

    Segue altivo o seu percurso

    Num exemplo de candura.

 

    O sol abraça o seu seio

    Que reluz fosforescente,

    Espelhando as matizes

    Do seu curso permanente.

 

    No final dessa jornada

    O rio Tietê o acolhe

    Retirando-lhe os espinhos

    E eternizando em saudades

    Seu misterioso destino.

 

 

                  Antenor  Rosalino

 

 

sábado, 20 de janeiro de 2024

DIAGNÓSTICO

         


Nos exames rotineiros...

Check-up cardiovascular,

Surpreendente resultado:

Angustiante insuficiência cardíaca

Viera ameaçar-me!

 

Esteira, eletro, ecocardiograma...

Equânimes resultados

Predizem o meu pensar:

Há tempos não sou jovial,

Necessito resguardar-me.

 

O ar ainda se entranha

Com fragrância no meu ser,

Sem presságios a agitar

Os anos que viverei.

 

Palpitações não me perseguem,

Porém, a veia aorta

Dilatou-se em demasia,

Expondo seu pranto oculto

Em doses de elegia.

 

Sem a carência cirúrgica

Acalmo o meu coração

Com indulgente esperança

Nas bonanças do amanhã.

 

             Antenor Rosalino

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

UM DIA DE SOL

       




O festivo arrulhar dos passarinhos

Na alegria do amanhecer

Anuncia a emoldurada magia

Dos primeiros raios de sol,

Aspergindo fantasias

No colorir dos roseirais.

 

As opalas ganham cores,

As árvores lançam flores,

Há nas pétalas mais fulgores

E nos olhares: amores!

 

As sibilas profetizam

Aventando em tom festivo:

A ausência dos suspiros

Pelas lágrimas caídas

 

Nos dias em que o sol

Taciturno se ajoelha

No espaço sideral,    

 

E em prece se oculta

Por trás do manto sagrado

Da amplidão celestial.

 

        Antenor Rosalino

  

domingo, 10 de dezembro de 2023

DIAL

 


       


No encantamento mágico do amanhecer,

Contemplo a nostálgica pousada

De inocente cisne à beira de profundo lago.

 

Os passarinhos gorjeiam em revoadas

E, mansamente, raios dourados e multicores

Anunciam a alegre chegada do sol,

Derramando suas bênçãos com florescência vivaz.

 

Na brevidade do dia fugaz,

Vem a poesia do entardecer!

Por vezes, vagarosamente,

O pranto das nuvens cai...

 

E logo chega o anoitecer,

Trazendo a suave brisa

Trepidando os rios em seu curso,

Procurando o mar.

 

Final do dia!

As montanhas silenciosas

Vestem o manto crepuscular.

Brilham sorrisos...,  sob a luz do luar.

 

                 

                   Antenor Rosalino

 

sábado, 25 de novembro de 2023

SENTIMENTOS

 

                                                       


 Há um aspecto relutante entre a mórbida paixão e a amizade verdadeira, A paixão tem perfil de posse. Os enamorados dominados pela volúpia do amor só têm olhos para o seu bem querer, sufocando-o inconscientemente, e, aos poucos, vão se frustrando na tentativa de moldar um ao outro a seu bel prazer.

  Não me refiro aqui, aos enamorados que nutrem em igualdade de condições, aquela paixão salutar, caracterizada pelo ardente desejo de estar a maior parte do tempo possível com a pessoa amada, pelo prazer da companhia e da cumplicidade. Eu falo da paixão exacerbada, que ultrapassa os limites da sensatez e do espaço próprio, para tentar protelar o domínio pessoal e restrito do outro. 

  A amizade, pelo contrário, é a essência eterna da solidariedade. Não tem amarras de domínio, é liberta, é sentimento nobre, isenta de interesses de reciprocidade. Gostamos dos nossos amigos e isso basta. Emprestamos-lhes o ombro afável, quando lágrimas rutilantes brotam dos seus olhos fatigados pelas adversidades. A ajuda, o consolo, estão sempre presentes e, mesmo na alquimia da distância, o calor da amizade aquece o coração e emite metafisicamente, raios de luz à pessoa amiga, em esperança de recebê-la num dia qualquer, de repente, e ver a felicidade vívida aventar-se no espaço, consumar-se em seu sorriso e comungar com nosso abraço.

   Assim como há casos e histórias apaixonantes de amores nascidos à primeira vista, é bem verdade também que, em muitos casos, ao perdermos tempo com alguma pessoa pela qual nutrimos um sentimento real de amizade, respeito e admiração, aos poucos a pessoa para a qual desejamos apenas a sua felicidade, sem pensarmos em reciprocidade de sentimentos perceberá que, surpreendentemente, passamos a representar muito para ela também, e não seria surpresa ouvirmos da pessoa a quem tanto devotamos afeto, respeito e admiração, a seguinte afirmação: “perdendo o seu tempo comigo, tornastes importante para mim”.  

   Portanto, numa análise clara da situação, não se trata de perda de tempo, em caso de uma amizade aparentemente unilateral, pelo contrário, esta é uma das mais admiráveis demonstrações de carinhosa amizade que podemos demonstrar por alguém, sobrelevando-se ainda, que não estará fora do contexto a afirmativa de que há tanta complexidade no amor e nas coisas do coração, que somos capazes até mesmo de amar uma pessoa de quem não vemos ou com a qual não temos maiores contatos.

   Fundamentalmente, a amizade é isso: uma desinteressada e afável solidariedade, cujo sentimento de tão nobre, até mesmo pode transformar-se em amorável cumplicidade transcendental.

 

                                                               Antenor Rosalino

 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

ESTRADA ABERTA


Ao longo da estrada aberta

Palmilho, na alegria

De gramas verdes, orvalhadas.

 

Busco o limiar onde

O horizonte abraça a vida,

Doura o curso dos dias

E impulsiona em doce frenesi

O meu pulsante coração.

 

Não tenho olhos para a

Negra desventura.

Como posso desviar o olhar

Da magia de um céu

Emoldurado de ternura?

 

Esse caminho de luz

Enternece-me de gratidão,

Alegrando o meu caminhar

Pelas veredas do amor

Fundamentado na razão.

 

            Antenor Rosalino