Defino a passagem humana pela Terra, como uma breve oportunidade de
aprendizado e, ao mesmo tempo, de utilização do infinito potencial de
inteligência do qual somos dotados.
Algumas pessoas utilizam o seu cabedal de conhecimentos, experiências e
criatividade, de modo bem mais abrangente do que outras e, com isso, desfrutam
com alegria dos muitos prazeres que a vida pode oferecer, contrariamente
àqueles que, por motivos de saúde, indolência ou falta de orientação, passam
simplesmente pela vida, sem viver. Não sabem sequer, apreciar uma paisagem, o
romantismo do crepúsculo, determinada arte, uma boa leitura...
Felizmente, existem ainda aqueles que, com o passar do tempo, já na
idade adulta, surpreendentemente repensam suas vidas e buscam na paz dos seus
sentidos, a razão maior da existência, seguindo com humildade de sentimentos as
vinhas da felicidade, onde o reto pensar e o amor ao próximo são os construtos
que os levam a feitos imorredouros.
Podemos atribuir tal fato, às incontáveis experiências que temos o
privilégio de vivenciar. Recordo a seguinte indagação feita por Machado de
Assis, em sua primorosa obra Memórias Póstumas de Brás Cubas: “recomeçar pelo
princípio ou pelo fim?” A meu ver, todo começo trás um perfil mais puro e
completo, a partir do seu princípio e só assim, o ser usufrui mais
completamente das oportunidades de conhecimento e evolução para as quais, todos
nós fomos criados.
Em se tratando de Artes, contrapondo-me aos que acreditam que “o bom já
nasce feito”, eu atribuo o sucesso em qualquer área artística, não como um dom,
mas pelo fato do artista ter tido a percepção de ouvir, ver ou sentir algumas
coisas com as quais se identifica. Por exemplo, a técnica das diversas formas
literárias, os livros ensinam. O que é dificultoso é a criatividade, mas mesmo
assim, esta pode ser adquirida em grande parte, com leituras variadas e
observações aprofundadas sobre as coisas simples e belas da vida.
Lembremos que os grandes escritores pautam suas vidas em profundas
reflexões e leituras diversificadas.
Aos poucos, a pessoa interessada aprimora o seu estilo próprio e realiza
construtos admiráveis, os quais podem ocorrer tanto na jovialidade quanto na
idade adulta e até mesmo na senilidade. Não faltam exemplos de intelectuais,
letrados, e artistas das mais diversas áreas que ganham ou ganharam notoriedade
a partir do outono de suas vidas.
É oportuno dizer que muitas das afirmativas que para alguns são verdadeiras,
para outros não o são, e assim, a polêmica sobre esse tema continua. Nessa
conformidade, o importante é a reflexão sobre o que a palavra não diz e ouvindo
a fala da alma, definirmos se o contexto trata ou não, de mais um enfoque da
mais pura ilusão.
Antenor Rosalino
