sexta-feira, 28 de agosto de 2026

HUMANOS

 

            

        Tanto temos que fazer!

        Livros e artigos para ler e que não lemos,

        Línguas que não aprendemos,

        Amor que postergamos sob todas as óticas

        E tudo mais que esquecemos

        Num andar às avessas olhando em espelhos.

 

        Os amigos se vão, ficam os adeuses,

        Crianças clamam por um pedaço de pão

        Pássaros gorjeiam tristes atrás de grades

        Enquanto muitos de nós, indiferentes,

        Permanecemos subscrevendo papéis,

        Sem a observância de tudo o que é belo.

 

        A ciência evolui, mas as guerras e a ganância

        Avultam-se em descomunal proporção.

        Desvirtua-se a geografia dos construtos humanos

        Até que um dia caímos de olhos cerrados em lástimas.

        E desmancham-se átomos no silenciar profundo

        Do adeus final entre lágrimas.

 

                                          Antenor Rosalino

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SENTIMENTOS

                                                   


Há um aspecto relutante entre a mórbida paixão e a amizade verdadeira, A paixão tem perfil de posse. Os enamorados dominados pela volúpia do amor, só têm olhos para o seu bem querer, sufocando-o inconscientemente, e, aos poucos, vão se frustrando na tentativa de moldar um ao outro a seu bel prazer.

  Não me refiro aqui, aos enamorados que nutrem, em igualdade de condições, aquela paixão salutar, caracterizada pelo ardente desejo de estar a maior parte do tempo possível com a pessoa amada, pelo prazer da companhia e da cumplicidade. Eu falo da paixão exacerbada, que ultrapassa os limites da sensatez e do espaço próprio, para tentar protelar o domínio pessoal e restrito do outro.  

  A amizade, pelo contrário, é a essência eterna da solidariedade. Não tem amarras de domínio, é liberta, é sentimento nobre, isenta de interesses de reciprocidade. Gostamos dos nossos amigos e isso basta. Emprestamo-lhes o ombro afável, quando lágrimas rutilantes brotam dos seus olhos fatigados pelas adversidades. A ajuda, o consolo, estão sempre presentes e, mesmo na alquimia da distância, o calor da amizade aquece o coração e emite metafisicamente, raios de luz à pessoa amiga, em esperança de recebê-la num dia qualquer, de repente, e ver a felicidade vívida aventar-se no espaço, consumar-se em seu sorriso e comungar com nosso abraço.

   Assim como há casos e histórias apaixonantes de amores nascidos à primeira vista, é bem verdade também que, em muitos casos, ao perdermos tempo com alguma pessoa pela qual nutrimos um sentimento real de amizade, respeito e admiração, aos poucos a pessoa para a qual desejamos apenas a sua felicidade, sem pensarmos em reciprocidade de sentimentos perceberá que, surpreendentemente, passamos a representar muito para ela também, e não seria surpresa ouvirmos da pessoa a quem tanto devotamos afeto, respeito e admiração, a seguinte afirmação: “perdendo o seu tempo comigo, tornastes importante para mim”. 

   Portanto, numa análise clara dessa situação, não se trata de perda de tempo, em caso de uma amizade aparentemente unilateral, pelo contrário, esta é uma das mais admiráveis demonstrações de carinhosa amizade que podemos demonstrar por alguém, sobrelevando-se ainda, que não estará fora do contexto a afirmativa de que há tanta complexidade no amor e nas coisas do coração, que somos capazes até mesmo de amar uma pessoa de quem não vemos ou com a qual não temos maiores contatos.

   Fundamentalmente, a amizade é isso: uma desinteressada e afável solidariedade, cujo sentimento de tão nobre, até mesmo pode transformar-se em amorável cumplicidade transcendental.

                                                  

                                                          Antenor Rosalino


  

  

  

sábado, 1 de agosto de 2026

O CREPÚSCULO DA VIDA


                                                          


 

A voz quase sempre ausente e rouca

Murmura palavras em monossílabas

Lentas, tristonhas,

Buscando em desalento

O carinho dos entes queridos

À sua ansiedade louca.

 

Ânsia de melhor ouvir,

Sentir e sonhar

Novamente os encantos

Das quimeras e lembranças

Tão nítidas em seu olhar.

 

Suas mãos cansadas e trêmulas,

Pousam sobre o encosto

Da velha cadeira vermelha,

O mesmo vermelho a confundir-se

Vez por outra,

Com a luz do seu olhar

A marejar!

 

As emoções do presente

Não trazem como outrora

A alegria, o esplendor do porvir

E suas vertentes;

Apenas lembranças, ternas lembranças

De um risonho amanhecer...

De tão longínqua aurora.

 

Seu caminhar é lento, indeciso.

O seu sorriso é brando

Entre as rugas a se untar,

Mas a serenidade é vívida

Tal qual, a suavidade do seu olhar.

 

Depusera dos sonhos e da ilusão

Para viver, enfim,

A indizível quietude

Da vida em refração.

 

 

                                                                               Antenor Rosalino