domingo, 8 de novembro de 2020

O VENTO QUE VEM DO LESTE



 

Vem o vento num arrulho

Trazendo manso frescor...

Aliciando as rosas e antúrios

Com doces uivos e olor!

 

Bem sei, esse ar envolvente,

Tão etéreo que enternece,

Vindo assim tão mansamente...

Esse vento vem do leste!

 

Nos lagos dançam os cisnes

Flertando as flores silvestres;

Em meus olhos brotam risos

Sentindo o vento do leste!

 

Envolvendo espaços vácuos

Em rito com a natureza em festa,

Ameniza o pranto inócuo

O vento que vem do leste!

 

Não temo procelas que passam

Ameaçando a flor bela,

Pois logo bons ventos retornam

Trazendo do leste o sol belo!

 

Passam as estações como um sonho...

Num sopro tristonho enturvecem!

Meu lenitivo e consolo

É o vento que vem do leste!

 

O sol cintila sempre em riste

Vindo também lá do leste...,

E meus olhos ficam tristes

Ao vê-lo morrer no oeste!

                            

                       Antenor Rosalino

 

domingo, 25 de outubro de 2020

DOIS AMORES


Na saudosa aurora de tempos idos,

meu coração inocente

 - distante das máculas, hoje presentes -,

dividia-se angustiante

entre duas senhoritas.

 

Uma delas era Jéssica

 - linda loura e um tanto sedutora.

A outra era Letícia

 - morena cheia de encantos,

coberta da timidez

que o seu olhar refletia.

 

 Numa tarde de domingo

 quando então eu me afligia,

 decidi que a bela Jéssica

 era a mulher que eu queria.

 

 Conforme passava o tempo,

 fui porém me convencendo que,

quem de fato eu queria

era a tímida Letícia!

 

 Desfiz então o romance

 e procurei por Letícia:

 tarde demais...

O seu coração já pulsava,

Agora,por outro rapaz.

 

Fiquei então longo tempo,

perdido em melancolia:

Jéssica foi passa-tempo

e Letícia..., meu desencanto!

 

            Antenor Rosalino

 

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

INOCÊNCIA

 

 

No mundo feliz dos seus sonhos

- construto da mente infantil -,

Põem-se a brincar a criança,

Como um anjo em seu perfil.

 

Alheia às intempéries da vida,

No quintal a devanear,

Tem a mente em fantasia

E olhos angelicais.

 

De repente, o tempo muda

Com prenúncio de vendaval

Surge, então, um arco-íris

Inebriando o seu olhar.

 

A criança feliz se agita,

Aponta para o arco-íris e diz à mãe:

- Veja só, minha mãezinha,

O que Deus pintou no céu.

 

                      Antenor Rosalino

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

ENTREOLHARES


Para ver a negra noite, tão bela...,

E o cirandar das falenas:

Não espero o pôr do sol

Ponho-me a fitar apenas

Os negros olhos de Helena!

 

 Se pretendo ver o mar

 De verdejante amplidão

 Abraçando a doce brisa:

 Repouso o meu olhar inquieto

 Nos verdes olhos de Eliza!

 

  Quando quero ver o céu

  De infinito azul edênico,

  Cintilando magnânimo as dunas e colinas:

  Fico calmo a contemplar

  O olhar azul de Cristina!

 

   Para ver o castanho crepuscular

   Emoldurar desertas praias,

   E o sol amendoado cintilar os caracóis:

   Entranho meus vívidos olhos

   No castanho olhar de Sol!

 

    O meigo olhar das mulheres:

    Divas, damas, colombinas, doidivanas,

    Maria’s,  Ana’s,  Letícias, Aline’s,  Luana’s ...

    Fragmentam-se em cores

    E deixam meus olhos assim: furta-cores!

 

 

                                 Antenor Rosalino

 

 

sábado, 26 de setembro de 2020

PERFÍDIAS


Não posso calar-me ou suprimir

um ato de neurastenia, ao constatar 

nas multidões pusilânimes,

o coro dos injustiçados,

os suspiros de elegia

ante as faltas de justiça

e de julgamentos equânimes!

 

São profundos sentimentos 

de melancólica astenia,

ao constatar-se as barbáries

crescentes a cada dia,

 

advindas dos privilegiados,

abastados de hipocrisias,

ou daqueles cujas vidas 

 retratam apenas perfídias.

 

Proliferam-se os atos corruptos...

As instituições se enfraquecem,

enquanto o respeito humano

pouco a pouco desvanece!

 

 O vandalismo anelante

 das facções de sandice

 anulam os poucos espaços

 da beleza urbana restante,

 enquanto os donos das guerras

 aumentam suas girices.

 


                      Antenor Rosalino

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 12 de setembro de 2020

A CALÇADA




Na calçada há tanto pisada,

Os rastros e marcas passadas

De delícias represadas,

Remetem os corações

De maturidade agastada,

 Aos sonhos da inocência,

 Das primícias e das fábulas!

 

 Acompanha a minha calçada

 De pisares, desgastada,

 Sua fiel companheira:

 A sarjeta fria e sólida...,

 Das multidões, ignorada!

 

 Suporta ingratas procelas

 Supera o tristonho invernar!

 Abraça o sol que lhe abrasa

 Ou a chuva a deslizar...

 

 Não contenho cálidas lágrimas,

 Quando me ponho a pensar

 No primaverar de madrigais,

 Nos jogos de botões

 E rabiscos na calçada...

 Alegrias sem iguais!

 

Pisando nesta calçada

De malmequer desfolhado:

 Tenho o coração pranteado,

 E a alma despedaçada

 De saudades afloradas.

 

                  Antenor Rosalino

 

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O CREPÚSCULO DA VIDA



 A voz quase sempre ausente e rouca

 Murmura palavras em monossílabas

Lentas, tristonhas,

Buscando em desalento

O carinho dos entes queridos

À sua ansiedade louca.

 

Ânsia de melhor ouvir,

Sentir e sonhar

Novamente os encantos

Das quimeras e lembranças

Tão vívidas em seu olhar!

 

 Suas mãos cansadas e trêmulas,

 Pousam sobre o encosto

 Da velha cadeira vermelha...,

 O mesmo vermelho a confundir-se

 Vez por outra,

 Com a luz do seu olhar

 A marejar!

 

  As emoções do presente

  Não trazem, como outrora,

  A alegria, o esplendor do porvir

   E suas vertentes.

   Apenas lembranças..., ternas lembranças

   De um risonho amanhecer...

   De tão longínqua aurora!

 

   Seu caminhar é lento, indeciso.

   O seu sorriso é brando

   Entre as rugas a se untar,

   Mas a serenidade é vívida

   Tal qual, a suavidade do seu olhar!

 

     Depusera dos sonhos e da ilusão

     Para viver, enfim,

     A indizível quietude

     Do tempo em refração.

 

                                        Antenor Rosalino