segunda-feira, 12 de outubro de 2020

INOCÊNCIA

 

 

No mundo feliz dos seus sonhos

- construto da mente infantil -,

Põem-se a brincar a criança,

Como um anjo em seu perfil.

 

Alheia às intempéries da vida,

No quintal a devanear,

Tem a mente em fantasia

E olhos angelicais.

 

De repente, o tempo muda

Com prenúncio de vendaval

Surge, então, um arco-íris

Inebriando o seu olhar.

 

A criança feliz se agita,

Aponta para o arco-íris e diz à mãe:

- Veja só, minha mãezinha,

O que Deus pintou no céu.

 

                      Antenor Rosalino

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

ENTREOLHARES


Para ver a negra noite, tão bela...,

E o cirandar das falenas:

Não espero o pôr do sol

Ponho-me a fitar apenas

Os negros olhos de Helena!

 

 Se pretendo ver o mar

 De verdejante amplidão

 Abraçando a doce brisa:

 Repouso o meu olhar inquieto

 Nos verdes olhos de Eliza!

 

  Quando quero ver o céu

  De infinito azul edênico,

  Cintilando magnânimo as dunas e colinas:

  Fico calmo a contemplar

  O olhar azul de Cristina!

 

   Para ver o castanho crepuscular

   Emoldurar desertas praias,

   E o sol amendoado cintilar os caracóis:

   Entranho meus vívidos olhos

   No castanho olhar de Sol!

 

    O meigo olhar das mulheres:

    Divas, damas, colombinas, doidivanas,

    Maria’s,  Ana’s,  Letícias, Aline’s,  Luana’s ...

    Fragmentam-se em cores

    E deixam meus olhos assim: furta-cores!

 

 

                                 Antenor Rosalino

 

 

sábado, 26 de setembro de 2020

PERFÍDIAS


Não posso calar-me ou suprimir

um ato de neurastenia, ao constatar 

nas multidões pusilânimes,

o coro dos injustiçados,

os suspiros de elegia

ante as faltas de justiça

e de julgamentos equânimes!

 

São profundos sentimentos 

de melancólica astenia,

ao constatar-se as barbáries

crescentes a cada dia,

 

advindas dos privilegiados,

abastados de hipocrisias,

ou daqueles cujas vidas 

 retratam apenas perfídias.

 

Proliferam-se os atos corruptos...

As instituições se enfraquecem,

enquanto o respeito humano

pouco a pouco desvanece!

 

 O vandalismo anelante

 das facções de sandice

 anulam os poucos espaços

 da beleza urbana restante,

 enquanto os donos das guerras

 aumentam suas girices.

 


                      Antenor Rosalino

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 12 de setembro de 2020

A CALÇADA




Na calçada há tanto pisada,

Os rastros e marcas passadas

De delícias represadas,

Remetem os corações

De maturidade agastada,

 Aos sonhos da inocência,

 Das primícias e das fábulas!

 

 Acompanha a minha calçada

 De pisares, desgastada,

 Sua fiel companheira:

 A sarjeta fria e sólida...,

 Das multidões, ignorada!

 

 Suporta ingratas procelas

 Supera o tristonho invernar!

 Abraça o sol que lhe abrasa

 Ou a chuva a deslizar...

 

 Não contenho cálidas lágrimas,

 Quando me ponho a pensar

 No primaverar de madrigais,

 Nos jogos de botões

 E rabiscos na calçada...

 Alegrias sem iguais!

 

Pisando nesta calçada

De malmequer desfolhado:

 Tenho o coração pranteado,

 E a alma despedaçada

 De saudades afloradas.

 

                  Antenor Rosalino

 

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O CREPÚSCULO DA VIDA



 A voz quase sempre ausente e rouca

 Murmura palavras em monossílabas

Lentas, tristonhas,

Buscando em desalento

O carinho dos entes queridos

À sua ansiedade louca.

 

Ânsia de melhor ouvir,

Sentir e sonhar

Novamente os encantos

Das quimeras e lembranças

Tão vívidas em seu olhar!

 

 Suas mãos cansadas e trêmulas,

 Pousam sobre o encosto

 Da velha cadeira vermelha...,

 O mesmo vermelho a confundir-se

 Vez por outra,

 Com a luz do seu olhar

 A marejar!

 

  As emoções do presente

  Não trazem, como outrora,

  A alegria, o esplendor do porvir

   E suas vertentes.

   Apenas lembranças..., ternas lembranças

   De um risonho amanhecer...

   De tão longínqua aurora!

 

   Seu caminhar é lento, indeciso.

   O seu sorriso é brando

   Entre as rugas a se untar,

   Mas a serenidade é vívida

   Tal qual, a suavidade do seu olhar!

 

     Depusera dos sonhos e da ilusão

     Para viver, enfim,

     A indizível quietude

     Do tempo em refração.

 

                                        Antenor Rosalino

sábado, 15 de agosto de 2020

VESTIBULANDO


        A decisão emanada é elogiável!

        Sua mente não mais divaga:

        é concentrada, fixa 

        no sublimado ideal

        do sonho universitário.

 

        Suas mãos cansadas e suadas

        seguram a inseparável caneta

        a deslizar em simétricas formas

        a grafia delineada

        em azul da cor do céu!

 

        Ultrapassa os obstáculos,

        um a um...,

        com aflorada esperança

        refletida no seu olhar

        inquieto, absorto

        na árdua morfologia,

        nos complicados

        cálculos matemáticos,

        em íngremes dados estatísticos

        e teoremas ardis.

 

        Envereda nesse prisma:

        Escondendo o doce pranto,

        enxugando o seu suor!

 

        Ludibriando catáforas,

        segue seu caminhar indulgente,

        aprofundando as análises

        com fé inquebrantável

        na altruística decisão

        de reconstruir um mundo novo...

        E brilhar!

 

                                                     

                       Antenor Rosalino

  

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

PAI E FILHO

                

                         

Dois amigos, porém, um elo a mais:

Uma mescla de ternura e respeito

Tão profundos que transcende.

 

Entreolham-se.

Seus olhos orvalhados são fontes represadas

De agridoces que a vida traz.

 

São cúmplices pela vida afora:

No bálsamo da alegria

Ou na dor que o pranto arrola.

 

Aprendem um com o outro nas vicissitudes:

Os conhecimentos da experiência vivida

No fulgor da juventude que espera.

 

                          Antenor Rosalino