segunda-feira, 5 de outubro de 2020

ENTREOLHARES


Para ver a negra noite, tão bela...,

E o cirandar das falenas:

Não espero o pôr do sol

Ponho-me a fitar apenas

Os negros olhos de Helena!

 

 Se pretendo ver o mar

 De verdejante amplidão

 Abraçando a doce brisa:

 Repouso o meu olhar inquieto

 Nos verdes olhos de Eliza!

 

  Quando quero ver o céu

  De infinito azul edênico,

  Cintilando magnânimo as dunas e colinas:

  Fico calmo a contemplar

  O olhar azul de Cristina!

 

   Para ver o castanho crepuscular

   Emoldurar desertas praias,

   E o sol amendoado cintilar os caracóis:

   Entranho meus vívidos olhos

   No castanho olhar de Sol!

 

    O meigo olhar das mulheres:

    Divas, damas, colombinas, doidivanas,

    Maria’s,  Ana’s,  Letícias, Aline’s,  Luana’s ...

    Fragmentam-se em cores

    E deixam meus olhos assim: furta-cores!

 

 

                                 Antenor Rosalino

 

 

sábado, 26 de setembro de 2020

PERFÍDIAS


Não posso calar-me ou suprimir

um ato de neurastenia, ao constatar 

nas multidões pusilânimes,

o coro dos injustiçados,

os suspiros de elegia

ante as faltas de justiça

e de julgamentos equânimes!

 

São profundos sentimentos 

de melancólica astenia,

ao constatar-se as barbáries

crescentes a cada dia,

 

advindas dos privilegiados,

abastados de hipocrisias,

ou daqueles cujas vidas 

 retratam apenas perfídias.

 

Proliferam-se os atos corruptos...

As instituições se enfraquecem,

enquanto o respeito humano

pouco a pouco desvanece!

 

 O vandalismo anelante

 das facções de sandice

 anulam os poucos espaços

 da beleza urbana restante,

 enquanto os donos das guerras

 aumentam suas girices.

 


                      Antenor Rosalino

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 12 de setembro de 2020

A CALÇADA




Na calçada há tanto pisada,

Os rastros e marcas passadas

De delícias represadas,

Remetem os corações

De maturidade agastada,

 Aos sonhos da inocência,

 Das primícias e das fábulas!

 

 Acompanha a minha calçada

 De pisares, desgastada,

 Sua fiel companheira:

 A sarjeta fria e sólida...,

 Das multidões, ignorada!

 

 Suporta ingratas procelas

 Supera o tristonho invernar!

 Abraça o sol que lhe abrasa

 Ou a chuva a deslizar...

 

 Não contenho cálidas lágrimas,

 Quando me ponho a pensar

 No primaverar de madrigais,

 Nos jogos de botões

 E rabiscos na calçada...

 Alegrias sem iguais!

 

Pisando nesta calçada

De malmequer desfolhado:

 Tenho o coração pranteado,

 E a alma despedaçada

 De saudades afloradas.

 

                  Antenor Rosalino

 

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O CREPÚSCULO DA VIDA



 A voz quase sempre ausente e rouca

 Murmura palavras em monossílabas

Lentas, tristonhas,

Buscando em desalento

O carinho dos entes queridos

À sua ansiedade louca.

 

Ânsia de melhor ouvir,

Sentir e sonhar

Novamente os encantos

Das quimeras e lembranças

Tão vívidas em seu olhar!

 

 Suas mãos cansadas e trêmulas,

 Pousam sobre o encosto

 Da velha cadeira vermelha...,

 O mesmo vermelho a confundir-se

 Vez por outra,

 Com a luz do seu olhar

 A marejar!

 

  As emoções do presente

  Não trazem, como outrora,

  A alegria, o esplendor do porvir

   E suas vertentes.

   Apenas lembranças..., ternas lembranças

   De um risonho amanhecer...

   De tão longínqua aurora!

 

   Seu caminhar é lento, indeciso.

   O seu sorriso é brando

   Entre as rugas a se untar,

   Mas a serenidade é vívida

   Tal qual, a suavidade do seu olhar!

 

     Depusera dos sonhos e da ilusão

     Para viver, enfim,

     A indizível quietude

     Do tempo em refração.

 

                                        Antenor Rosalino

sábado, 15 de agosto de 2020

VESTIBULANDO


        A decisão emanada é elogiável!

        Sua mente não mais divaga:

        é concentrada, fixa 

        no sublimado ideal

        do sonho universitário.

 

        Suas mãos cansadas e suadas

        seguram a inseparável caneta

        a deslizar em simétricas formas

        a grafia delineada

        em azul da cor do céu!

 

        Ultrapassa os obstáculos,

        um a um...,

        com aflorada esperança

        refletida no seu olhar

        inquieto, absorto

        na árdua morfologia,

        nos complicados

        cálculos matemáticos,

        em íngremes dados estatísticos

        e teoremas ardis.

 

        Envereda nesse prisma:

        Escondendo o doce pranto,

        enxugando o seu suor!

 

        Ludibriando catáforas,

        segue seu caminhar indulgente,

        aprofundando as análises

        com fé inquebrantável

        na altruística decisão

        de reconstruir um mundo novo...

        E brilhar!

 

                                                     

                       Antenor Rosalino

  

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

PAI E FILHO

                

                         

Dois amigos, porém, um elo a mais:

Uma mescla de ternura e respeito

Tão profundos que transcende.

 

Entreolham-se.

Seus olhos orvalhados são fontes represadas

De agridoces que a vida traz.

 

São cúmplices pela vida afora:

No bálsamo da alegria

Ou na dor que o pranto arrola.

 

Aprendem um com o outro nas vicissitudes:

Os conhecimentos da experiência vivida

No fulgor da juventude que espera.

 

                          Antenor Rosalino


quinta-feira, 23 de julho de 2020

ENCANTO HIBERNAL


      

           


       Enunciação de encantamento!
        Descortina-se, calidamente,
        O magnetismo da estação hibernal.

        Átimos diamantinos
        Em fragrâncias que idealizam
        Nuances de enamorados!

        Alquimia de prazeres
        Aventa no espaço sideral
        Em ápice glorificado de paz universal.

        Danos do mundo concreto
        Permisto com o abstrato...
        Sonhares noturnos incertos.

        Contrapondo-se à matéria gélida
        Reacendem-se as ternuras
        Nas alcovas das lareiras.


                         Antenor Rosalino