sexta-feira, 24 de abril de 2026

E agora, Joseph?

  

                                       

Durante a realização de uma das mais famosas e tradicionais exposições agropecuárias do país que reúne grandes pecuaristas até do exterior, um fazendeiro expositor, já dentro dos seus setenta e cinco anos de vida, estando à sós num determinado momento observando melhor o ambiente diversivo, visualizou uma linda jovem esbelta, de olhos esverdeados aparentando não mais que trinta anos de idade. A moça não estava acompanhada; usava calça jeans e blusa azul clara rendada, o que tornava ainda mais belo o seu corpo escultural e o balançar do seu andar calmo e extremamente sensual. Ao vê-la entrar numa lanchonete próxima onde pediu um refrigerante, o fazendeiro, encantado, aproximou-se da moça e foi logo se declarando:

   - Boa tarde, sou Joseph. Posso saber seu nome? – Entreolharam-se por alguns segundos e, prontamente, a jovem respondeu:

  - Joanita. Você é expositor?

  - Sim – arrematou Joseph. – Deram-se as mãos em cumprimentos e prosseguiram a conversa com interrogações recíprocas.

  Joseph, tal qual Joanita, não possuía educação apurada, mas o ancião demonstrava ser possuidor de ótimo caráter e bem humorado. Era divorciado e deu a entender à jovem que possuía muito dinheiro. Isso bastava. Era tudo o que Joanita sempre quis.

  Marcaram novo encontro e iniciaram um namoro que, para ele, era arrebatador.  Joanita, por sua vez, só se interessava por dinheiro. Os encontros foram se sucedendo e, quando ambos estavam juntos, Joanita não se preocupava em comportar-se como uma dama e tinha o hábito de lançar olhares maliciosos e interesseiros a qualquer rapaz que lhe despertasse alguma atenção.

  Certo dia, Joanita apresentou sua melhor amiga ao fazendeiro. Os três passearam, conversaram animadamente, mas logo Joseph teve de deixá-las devido aos compromissos.

  No dia seguinte, Joanita dirigiu-se a um banco com a mesma amiga. Coincidentemente, Joseph também foi ao mesmo banco e, a princípio nas as viu. As duas amigas desceram de um elevador e Joseph de outro. Ao reconhecê-las, Joseph apressou os passos para lhes dirigir a palavra, mas foi o tempo suficiente para que ouvisse a amiga dizer a Joanita:

  - E você, amiga, vai conseguir ficar com aquele velho feio? – Joseph, decepcionado, deteve-se para não ser reconhecido e não lhe foi possível ouvir a resposta de Joanita.

  Passaram-se os dias. Joseph nada comentou a respeito do episódio que o deixara profundamente magoado e os encontros continuaram apesar dos mais de quarenta anos de diferença de idade entre ambos.

  Ao aproximar-se o fim da exposição, Joseph lembrou-se de que havia informado à Joanita que faria aniversário no último dia da exposição. Quando o evento chegou ao seu último dia, a noite avançava e Joanita não cumprimentava o idoso pelo aniversário. Joseph, entristecido, perguntou à linda jovem:

  - Joanita, você acha normal esquecermos o dia do aniversário de quem amamos? – A resposta de Joanita foi firme e tácita:

  - Absolutamente não, Joseph. - E continuou: - Quem esquece o dia mais importante da vida de quem diz gostar é porque não gosta mesmo. Eu nunca me esqueço, nem mesmo do aniversário do meu cachorrinho, aliás, hoje é aniversário dele.

 

                                                                       Antenor Rosalino

 

 

4 comentários:

  1. Olá, querido poeta, cronista e contista Antenor, rssss, que ótimo conto, amigo!
    Tão bem conduzido do início ao fim mas, quando o cachorrinho apareceu, tive de rir...essa eu não esperava!
    Mas no início nada me surpreendeu, conhecendo os humanoides!
    Pois é, amigo, os humanos têm muitas coisas boas, qualidades excepcionais, existem pessoas maravilhosas, e também outras desse jeito que você tão bem narrou. Até deu raiva! Você conseguiu mexer com meus sentimentos de indignação, coitadinho do homem. Fiquei imaginando a situação, o que ele escutou.
    Adorei esse seu conto, muito criativo, essa do cachorrinho...rsss . Aplausos!!
    Uma feliz semana pra você junto à família!
    E hoje não esqueço do meu abraço para a linda e calma Araçatuba!
    Grande abraço gaúcho! 🙋‍♀️😅

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    1. Olá, Tais.
      Fico feliz em saber que o hilariante conto fez abrir o seu sorriso quando da minha referência ao cachorrinho, por outro lado, a sua indignação no que tange à atitude da jovem notadamente mostra a sua admirável sensibilidade ao imaginar a frustração do idoso.
      Assim como você bem diz, muitas são as pessoas maravilhosas, outras, porém, não se importam em desapontar o próximo com atitudes impensadas e essas, com o passar do tempo traz arrependimentos que, quase sempre, jamais poderão ser reparados.
      Obrigado sempre, querida amiga, e tenha também uma semana iluminada e feliz na sua lindíssima Porto Alegre.
      Cordial e grande abraço araçatubense.


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  2. Olá, caro amigo poeta (e contista), leio desta vez não um de seus excelentes poemas, mas esse seu conto que demonstra
    larga experiência nessa forma literária, o conto com as suas
    exigências técnicas, como ocorreu quando a história se desenvolveu entre Joanita e Joseph, ela uma bela jovem, e ele
    um senhor já de idade, que com ela se encantou.
    O conto demonstra que não basta a jovem querer alguém com riqueza, como não basta o homem idoso querer uma bela mulher pelo seu dinheiro. O conto mostra claramente que a simples intensão de um e de outro não é o suficiente para que haja bom entendimento entre eles e que junte-os só pela vontade do homem idoso.
    O conto mostra que as diferenças de idade podem ser mais fortes para impedir um relacionamento que a simples intenção de tirar proveito pela fortuna.
    Excelente, meu amigo!
    Uma ótima semana, com muita paz e harmonia na sua bela Araçatuba.
    Grande abraço

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    1. Prezado Pedro Luso,
      Como sabe, a minha preferência é por poesias, mas ouso, vez por outra, diversificar a escrita, prova disso é que tenho várias crônicas publicadas em jornais e, em duas oportunidades, consegui pelos menos receber menções honrosas em concursos de contos e o meu quarto livro é um romance. Assim, folgo em saber da sua apreciação a esse meu conto, e sua análise é belíssima, profunda e reflexiva.
      De fato, não raras vezes, o peso do avanço da idade se constitui no maior obstáculo para que uma união amorável se realize com energia imensa que flui, na imensidão do sentir.
      Mais uma vez, lisonjeado e honrado com seu comentário só tenho a a lhe agradecer, meu caro e ilustre amigo.
      Com votos de ótima semana despeço-me com um caloroso abraço desejando-lhe saúde e paz, desde o interior paulista até os encantos da sua Porto Alegre.

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